Diário de carnaval


.


Mais um destino pra minha pequena coleção de refúgios. Eu coleciono trilhas e estradas. Guardo comigo um pequeno acervo de caminhos. Espaços que muitos visitaram, mas só eu soube resignificar da forma que me convence. Ninguém mais além de mim conhece a imensidão da plenitude que meu espírito tem fome. Muitas fomes me aguçam: de momentos, de paladares, de perfumes, de lugares, de pessoas, de prazeres não denominados. A minha visão enxerga através de sensações, enquanto meus olhos abraçam cores e formatos. O meu estômago cede espaço a um turbilhão de borboletas. Acompanham-me sorrisos gratuitos por segundo. E isso tudo só me apraz lembrar por saber que se trata daquela gostosa saudade pedindo por mais.

Karina Moraes
16/02/2013

Véio não!


.



Ai daquele que nos disser que gente velha se mede por idade! Desapego às falsas moralidades, desapego à neurose da louça sempre impecável, desapego aos pudores. Aprendo e ensino a exercitar a jovialidade com quem me resguardo sob o mesmo teto. Optamos pela antioxidação do tempo, para não nos tornarmos arquivos de metal passíveis apenas de armazenamento das informações diárias. Despimo-nos de tantas formalidades e isso nos faz respirar mais a vida e menos os aborrecimentos. Em uma noite qualquer, optamos por deixar as portas abertas pra que outros risos se somem aos nossos. Não convidamos números: convidamos as mesmas frequencias, os mesmos ritmos, mas uma variedade de notas, pra que não faltem acordes em nossas melodias não ensaiadas. Estreitamos laços; aumentamos a música e cantamos em voz alta a fim de isolarmo-nos dos sons externos da caótica monotonia urbana. O desconhecido não nos causa medo, nos causa curiosidade! Humanizamo-nos mais em relação ao próximo, filosofamos com os bêbados da rua sem receio ou repúdio. Permitimo-nos gargalhar aleatoriamente e sem ressalvas, por entendermos que as espontaneidades são mais sinceras que as poses. 
        É por isso que nos planos de futuro se desenha uma placa com letras neòn: Xô síndrome de velho, que aqui não tem espaço pra você! Já disse ao meu médico, na bula do meu remédio agora só leio Arnaldo Antunes: "eu quero é viver pra ver qual é, e dizer venha pra o que vai acontecer! Eu quero que o tapete voe no meio da sala de estar"!
Calúnia contra a vida culpar o tempo por nosso envelhecimento! A tal da velhice... coisa que só chega em razão da maldita e inevitável mecanicidade que nos sujeitamos ao atingir a “fase” adulta. A rotina cada vez mais nos acondiciona aos ponteiros do relógio, robotizando-nos. Desaprendemos a sermos jovens e nos deixamos enferrujar. O estresse urbano passa a estar tão contido em nossas veias que a intolerância não cede espaço às ousadias menos costumeiras. Deixamos o espírito adormecer ao que foge à rotina, e então nossos ombros passam a pesar mais que o normal. Nossa vitalidade se perde na medida em que nossos lábios se enrijecem e a mente se desgasta mais rápido que a pele. Já dizia Cecília Meireles querer "segurar a juventude" e "prender o tempo na mão". Eu digo que coleciono a juventude e o tempo, nas rugas que um dia marcarão minhas mãos! Intolerável é render-se a si mesmo quando o eu se acomoda na desculpa do cansaço.

Karina Moraes
10/01/2012

Livre arbítrio


.

Liberdade de escolha foi algo que passei a respeitar desde bem cedo. A partir do momento que aprendi a andar sob as minhas próprias pernas percebi que tudo o que chegaria até mim seriam consequencias unicamente de meus atos e mais ninguém além de mim poderia arcar com elas. É por esse motivo que nada do que faço é desprovido de um pesar. Analiso muito bem onde piso sem precisar de repressões ou puxões de orelha. Sou articulada o suficiente pra romper com os "fios de nylon" que a sociedade insiste em prender em nossas mãos e pés, tornando-nos marionetes. E assim vou traçando minha vida, conciliando responsabilidades e momentos voltados ao que gosto de fazer. E os gostos particulares são tão diferentes, não é?! Exercer essas distinções sem temores diante dos olhares sociais é o que se convencionou chamar de "liberdade". Eu optei por entrar ou não em uma universidade; eu optei por um curso; eu optei por levar a sério ou não esse curso; eu optei pelas minhas companhias; eu optei por namorar ou não; eu optei por alguns estilos musicais; eu optei me especializar em alguma vertente artística; eu optei por me especializar em alguma vertente acadêmica; eu optei por integrar ou não um grupo voluntário; eu optei por ter ou não uma religião; eu optei por gostar ou não de futebol; eu optei por ser ou não vegetariana; eu optei por ir à balada ou reunir poucos amigos pra tocar violão; eu optei por morar fora ou não; eu optei pelas minhas crenças; eu optei pelas minhas roupas; eu optei por alguns posicionamentos políticos; eu optei por algumas viagens; eu optei por comprar livros ou joias; eu optei por dançar balé ou funk; eu optei pelo respeito ou desrespeito à vida alheia; eu optei por uma peça de teatro ou uma festa rave. Cada escolha implica uma renúncia. Todos os dias somos bombardeados de opções que só dizem respeito a nós mesmos. Opiniões são sempre muitíssimo bem vindas, desde que desprovidas de preconceitos ou apontamentos e, certamente, a partir do momento em que o outro se dispõe a compreender e aceitar um mundo distinto do que vive. Tenho sérios problemas com julgamentos alheios, bem como com qualquer tipo de imposição. Em contrapartida, também admito que não é difícil me ofender quanto a isso: basta uma riso em tom de escárnio pra me deixar arisca e querer defender meu espaço. E, pois é, pra alguém que vive em um campus de HUMANAS, pesquisa escravidão, faz teatro e respira MPB, não poderia ser diferente mesmo. Minha percepção com indiretas é extremamente aguçada. O mundo é plural e a intolerância com as escolhas alheias em pleno século XXI é puro retrocesso!

Karina Moraes
19/11/2012
 

Revisão


.



Refletir os restos e os reflexos, a falta de retorno e o recurvar dos discursos; ressignificar a nostalgia, resumir em retratos. Reaver-se e retratar-se das próprias rendições e retrocessos. Reavaliar os verbos, os rumos remediados, os risos sem razão, a vida em recesso, os receios e os recalques; relegar as reles palavras rebuscadas e as ruínas poéticas; revisitar refúgios. Redescobrir relicários; remendar os retalhos; arrumar as redes, rearranjar os remos e os roteiros; revigorar-se sem ressalvas. Rememorar a beleza rouca; brindar reminiscências e as recônditas amenidades da alma. Auto retificar-se das irrequietudes refutáveis.

Karina Moraes
03/11/2012

Sou soma


.


Cada reminiscência emoldura um momento, desenhando fotografias que nos compõem. Apercebemo-nos mais de nós mesmos ao olhar pro espelho e permitirmos enxergar nosso reflexo através dos retratos de ontem, entendermo-nos como a consequência de nossos próprios curtas e longas metragens. Constitui-nos mais as características agregadas que as genéticas. Constitui-nos as músicas que ouvimos e seus intérpretes de chuveiro, os passos de dança não ensaiados e os atores sem seleção de currículo, os que dividem palco com nossos personagens, criados não intencionalmente. Somos nossas fomes da alma. Constitui-nos mais os rascunhos de nossas poesias que o produto final delas, já lapidado. Somos mais que os contornos invertidos e móveis que enxergamos no espelho. Do passado, incrusta-se na bagagem o saudoso, o vil e o indiferente. Somos os vestígios do ontem, resultado de resultados.

Karina Moraes
02/11/2012

Entrelinhas


.


É que na escrita o encontro se sela mais fidedignamente que qualquer oralidade. Reconheço o outro muito mais pela subjetividade de seus registros aleatórios que por quaisquer definições pré estabelecidas. Da mesma forma, entrego-me mais pelo mesmo caminho. Radiografando um eu, autêntico, pela escrita. Por mais desconexas que estejam palavras e ideias. Quando leio o que o outro escreve, depreendo muito de sua alma e menos do que diz o texto em si. Talvez seja por isso que tanto gosto daqueles que escrevem: por me permitir leituras da alma! Aliás... ora, se a escrita não é o transbordar de si mesmo, o que seria?! Meus queridos autores cotidianos, eu os admiro e, talvez demasiadamente piegas, por vezes os amo também!


Karina Moraes
23/10/2012

Passional


.

De certo que paixão acontece no plural! Veio ter comigo algumas repentinas vezes por aí... dessas de muito fogo e pouca lenha. De dar borboletas no estômago e deixar a alma afônica. Alguns ousaram me corrigir dizendo ser sintoma de amor. Digo que não! Nego-me a crer ter amado tantas vezes quanto me apaixonei! Ai, ai... pois pena dos que não vivem paixões plurais e vendavais...!


Karina Moraes
22/10/2012

...


.


O acerto pode ser total culpa do erro! Assim: por um deslize bobo, erra-se o alvo, mas o foco se torna melhor. Há sentimento que acontece indefinido e se torna intrigante por assim ser, incerto e até descrente, por apercebermo-nos dele demasiadamente precoce. O tempo todo estamos lidando com estímulos diferentes que, de alguma forma, transformam mente e coração, todos os dias. Mudamos conceitos, mudamos a forma de pensar, de sentir, de ouvir e de aceitar novas fases e novas pessoas em nossas vidas. Nós determinamos se é válido permitir que entrem e permaneçam conosco, se assim houver reciprocidade no acolhimento. Algumas assumirão papel distinto das demais e, de repente, uma em específico, se destacará em meio a um turbilhão de pensamentos que o habitam diariamente. Então, você passará a carregá-la onde quer que vá, mesmo que distante pelas circunstâncias. Cada reencontro revelará o quanto os ponteiros do relógio podem ser cruéis. Cada discussão mostrará o quanto será importante o exercício da tolerância, e cada diferença nos fará amadurecer para somar. Deixar que alguém entre em sua vida, é tarefa fácil. Difícil é permanecer! Mas, se por ambos a permissão é dada, cabe então fazer valer a pena!

Karina Moraes
02/08/2012

Breve roteiro.


.


No primeiro momento, impulso. No segundo, quis querer. No terceiro, quis. No momento posterior... o posterior não aconteceu.

As palavras coreografaram-se em ritmos e momentos desordenados, contrariando os tantos ensaios anteriores. A curta trajetória confirmou-se nada inteligente, desde o início. O autocontrole dissolveu-se em álcool... e o que o sono pausou, amanheceu embrulhado em papéis de ressaca moral. O vento litorâneo lhe faria despir dos sintomas de embriaguez psicológica, poetizando o “dramalhão gratuito” de um curta-metragem que, por ora, engavetou-se.
Karina Moraes
10/07/2012

Twitter @kollim

    Siga-me no Twitter