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O acerto pode ser total culpa do erro! Assim: por um deslize bobo, erra-se o alvo, mas o foco se torna melhor. Há sentimento que acontece indefinido e se torna intrigante por assim ser, incerto e até descrente, por apercebermo-nos dele demasiadamente precoce. O tempo todo estamos lidando com estímulos diferentes que, de alguma forma, transformam mente e coração, todos os dias. Mudamos conceitos, mudamos a forma de pensar, de sentir, de ouvir e de aceitar novas fases e novas pessoas em nossas vidas. Nós determinamos se é válido permitir que entrem e permaneçam conosco, se assim houver reciprocidade no acolhimento. Algumas assumirão papel distinto das demais e, de repente, uma em específico, se destacará em meio a um turbilhão de pensamentos que o habitam diariamente. Então, você passará a carregá-la onde quer que vá, mesmo que distante pelas circunstâncias. Cada reencontro revelará o quanto os ponteiros do relógio podem ser cruéis. Cada discussão mostrará o quanto será importante o exercício da tolerância, e cada diferença nos fará amadurecer para somar. Deixar que alguém entre em sua vida, é tarefa fácil. Difícil é permanecer! Mas, se por ambos a permissão é dada, cabe então fazer valer a pena!

Karina Moraes
02/08/2012

Breve roteiro.


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No primeiro momento, impulso. No segundo, quis querer. No terceiro, quis. No momento posterior... o posterior não aconteceu.

As palavras coreografaram-se em ritmos e momentos desordenados, contrariando os tantos ensaios anteriores. A curta trajetória confirmou-se nada inteligente, desde o início. O autocontrole dissolveu-se em álcool... e o que o sono pausou, amanheceu embrulhado em papéis de ressaca moral. O vento litorâneo lhe faria despir dos sintomas de embriaguez psicológica, poetizando o “dramalhão gratuito” de um curta-metragem que, por ora, engavetou-se.
Karina Moraes
10/07/2012


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O caber infinito do abraço, onde o diálogo se revela além das palavras. Onde o ombro se faz porto, moradia instantânea pra acalentar inseguranças. 

As palavras ressoam sem voz, feito orações particulares. O fechar de olhos faz retrospectivas, e filmes inteiros se dispõem no contato, na recepção do que é dito calado. Momentos diversos, tantos, que se encontram num fugaz instante. Adormece inquietudes, faz-se leito, refúgio, fortaleza, divã. Confidências no respirar. Mesmo que não intencionais. Dissolver de consternações. Antídoto. Afirmação do querer bem: Confirmação de benevolência! O abraço é o lugar para a reclusão das marcas do mundo lá fora.  Mais que isso: é o despir do turbulento mundo que existe dentro de si.  É o recolher do cansaço, e é o esquecer de se estar cansado do cansaço.   É levar um pouco do outro, e deixar muito de si! Revelar, ansear decifrar. É troca! E a garantia de reciprocidade será reconhecida na percepção e assegurada no confiar.

29/06/2012

Quebra-cabeça


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Percebo me sentir mais próxima da completude cada vez que encaro um gesto sincero, como peça obrigatória do meu interminável quebra-cabeça. Fiz de mim uma colecionadora de bons momentos. Guardo os abraços mais fortes e descarto aqueles que foram dados só por conveniência. Se também guardo as besteiras que ouço, é por perceber a importância das confidências que nelas estão implícitas. Tomo como exercício diário me despir de tudo o que me bloqueia. Não coleciono pessoas, coleciono a essência que há nelas. Tenho inúmeros colegas, e agradeço por tê-los, mas faço questão de alguns poucos e bons. A esses aponto como “amigos”! Não escolho a quem oferecer ombro, minha recepção ao “outro” se dará pela conquista. Costumo viver de inteiros. “Intensidade” passou a ser uma constante. Tenho medo de viver padrões, mas pouco me importa viver alguns bonitos clichês. Gosto dos que ousam, dos destemidos e dos que admitem temores. Passei a evitar os fúteis e não substanciais. Passei a sentir mais, a querer mais, a me doar mais, a aprender mais. Reconheço facilmente quem vive de aparências. “Pose” é algo que me causa asco. Não me refugio em qualquer colo. Gosto de olho no olho. Não tenho medo de exposição, falo o que tiver vontade e isso costuma me levar mais leve pra casa no final da tarde. A cabeça junto ao travesseiro é uma recapitulação do que foi o dia. Desfaço nós. Guardo a energia de todos aqueles que me acrescentam. Estou o tempo todo abraçando em pensamento. Gosto de pele, de contato, de apertar bochechas, de brigar brincando. Gosto de crianças e mais ainda de idosos. Gosto dos cinqüentões com espírito de vinte e dos raros dezoitinhos surpreendentemente adultos. Gosto de gente que soma, gosto dos “de verdade”!
Karina Moraes
07/06/2012

Aço, aço, ar.


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É muito mais do que querer.
É precisar!
É saber que há espaço,
Pro mundo inteiro no abraço.
É insone pernoitar.
Ter medo e ainda assim desafiar
Cada perna, cada passo.
É ter tudo fora do lugar
Disfarçar o gesto falso
Por em ordem pra desorganizar
Todas reviravoltas num só laço
É não cumprir todo o planejar
Seguir dançando no embaraço.

Karina Moraes
18/05/2012

Observadores


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Os passos são rápidos, apressados pelo atraso. Desaprendemos do trabalho de observação. Inação do “contemplar”. A vista percorre corredores: do metrô, do trabalho, do ônibus, da escola. E as paisagens não se formam. A mecanicidade dos ponteiros marcando as horas compõe angustiante e infindável melodia. Somos escravizados pelo relógio, diariamente! Tornamo-nos imperceptíveis por nós mesmos. Não apercebemo-nos. Não nos deixamos aperceber. Perdemos sorrisos, olhares. Perdemos sons, cores, perfumes e gestos. Cegos pela ânsia de chegar. Quão privilégio deveria reconhecer em si o desenhista, o fotógrafo e ofícios a estes assemelhados, movidos por aquilo que todos os outros permitem morrer com a maioridade: a arte de observar!
Karina Moraes
23/04/2012

Dispersar


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Eu perdi todas as ideias de texto num momento de lapso de memória e flash de lembrança. Esvairam-se no suspiro... Gosto amargo e doce de nostalgia. Emaranhar de pensamentos das vivências de um outro momento e das doses do agora que conduzem à embriaguez.

21/04/2012

Recepção do desconhecido


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Estranha recepção do desconhecido, que se esvai em meus abstratos pensamentos... Afigura-se em um “querer”,  mas sem tocar-lhe. Em um “desejar”, mas sem procurar-lhe. Distancia-se em corpo, em copo de abstrações. Desgarra, provoca o indagar. Revela-se em confusas conclusões, de fatores diversos em conjunto... tão longe de agregarem sentido. Desfaz-se em palavras. Palavras apenas. Pequenas, simples, aleatórias. E dóceis! Dócil demais pra conferir entendimento. Apenas, apenas palavras. Desfaz-se em música... Em canções que não são as minhas, mas que me compõem em seus instantes. Quantos turbilhões de devaneios cabem nos breves momentos desfeitos em fugacidades? Decifra-me ou devoro-te? Devoro-te na ânsia de lhe decifrar. 

04/2012 

Pra lhe refugar: um recanto,


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Um refúgio!

Pra me desencantar, pra me retificar o canto.

Que me refaça em razão, que o rarefeito já não me convém.

Um refúgio! Que me reduza ao riso, mas não me reduza o riso.

Que riscar-te é um risco, que não riscar-te também.


Um refúgio! Que ria de mim e que eu ria do acaso!

Que até refrigere, se assim preciso for.

Que me refreie, mas que me livre do descaso!

Karina Moraes
10/04/2012

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É que aprendemos e desaprendemos tantas e tantas vezes ler aquilo que somos. Descrições só são válidas para personagens paralelos. E ainda assim, serão sempre interpretados de formas distintas, a depender do narrador. Não acredito nisso de onisciência. E os observadores, as vezes me dão medo.

Karina Moraes

Fixação


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Ser estranho com gosto de néctar. Com gosto de dúvida. Com gosto de veludo. Com gosto de querer. Que me olha. E me olha antes que eu tenha tempo de disfarçar a reciprocidade. Não é minha lentidão em curvar o pescoço na direção contrária mas o momento que, fugaz, se faz hipnótico. Quantas vontades guardam um olhar. Quantas certezas guardam a ressaca da beleza no amanhecer. Segurança tanta que paradoxalmente se esvai ao longo do dia seguinte. Na ausência. Suco de descrença no timbre da voz, no pronunciar que há pouco se fez tão doce e querido. Que nos ápices que alternam ternura e indiferença, me leva a embriaguez. Sem me enraivecer. Por te gostar tanto...

Karina Moraes

02/2012

Que me faz


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Eu sou mesmo os tantos, tantos ontens que me compõem.

As tantas luas que vi amanhecer sol.

As canetas sem tampa e as borrachas usadas nas escritas a lápis.

O joelho com Gelol.

O mínimo e o ápice.

Os poetas que me acompanham.

A soma das quantas decisões.

As escolhas que em mim se emaranham.

A conseqüência de uso dos sinais verdes, amarelos e vermelhos

...das curvas, dos semáforos.

Sou o que fiz, o que faço e o que refaço de mim.

Karina Moraes

13/02/2012

Fora do ninho.


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É o cinzento do céu que cobre o egoísmo dos escapamentos e a ganância das chaminés que nos traz galáxia à lucidez, via-láctea. Caminho de leite celeste dos bilhões de vagalumes que um dia apelidaram de estrelas.

Ora, como ousam fumaças me roubarem estrelas?!

Um dia nos disseram que lá, na selva de pedra, não havia aqueles pontinhos brilhantes na abóboda celeste. Pobre diabo este, se esqueceu do compromisso dos vagalumes: se o véu parece negro, é porque estão voando mais alto. Os dias que angustiam em penumbra se revelarão noites futuras de luz.

Êêê apêndice da Capitarrrr! Selva de pedra e pátio de leões. Estrelas tímidas em meio à cortina de neblina. O que restou dos populosos aldeamentos Guaiananes. Somos ainda seus índios Guarus... contraditoriamente de origens diversas. Somos rios que se encontram: Mogi, Embu e Ribeirão. E que deságuam mais fortes...

Em Guarulhos!

Karina Moraes

06/02/2012

Abstrações


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Opte por viver de forma que cada inspiração absorva os máximos e cada expiração libere os excessos.

Guarde consigo um pôr-do-sol. Enfeite os cabelos com um amanhecer. Transborde no corpo uma cachoeira inteira. Leia uma lua. Troque de lugar a ordem de algumas estrelas. Tateie o término do arco-íris. Bispe o aroma de um maracujá. Adormeça na casca de um pêssego. Pegue carona em um Dente-de-Leão. Banhe-se no espiráculo de uma cachalote. Redirecione as flechas do cupido. Deguste cores. Tempere melodias. Perceba o azedo do açúcar. E o doce do limão. Caminhe tão longe, que não seja possível ir além. Reinvente possibilidades. Reinvente-se.

Karina Moraes
01/01/2012

2011!


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2011? Pesado, difícil, forte, bonito, intenso!

Hoje digo com clareza que jamais poderia imaginar o que me reservava esse ano. No início até ousei arriscar palpites, não um, mas vários! Surgia cada vez mais hipóteses de como se daria o depois, e eu me encontrei mergulhada em um turbilhão de dúvidas e confusões. Havia uma bifurcação no meio da minha estrada, sem placas, sem sinalizações, sendo necessário e urgente optar por um caminho. Estacionar, optar por não optar, também era uma opção!

A escolha que fiz, em meio a ápices de risos e lágrimas, ainda me provoca temor, no entanto em nenhum momento sofri a dor do arrependimento, o maior dos monstros e do qual mais temia! Nesse ano eu me apresentei ao mundo e ele se apresentou a mim! Tive que me adaptar a acordar todos os dias sem a voz da minha mãe me apressando com os horários, sem os pães comprados e o almoço pronto. Sair na calçada e não reconhecer as ruas e casas que se dispunham diante de mim. Tive que me adaptar com o ar (incomparavelmente mais poluído!), com o caos do trânsito, com a "querida" Dutra e Senna! Tive que me adaptar à pessoas, ora muito iguais, ora muito distintas de mim.

A absurda carga de leitura e avaliações a que me submeti cumprir e levar adiante, logo deu um jeitinho de me mostrar que daqui pra frente, não raro, as noites se tornariam dia. Que isso ocorreria de forma cada vez mais frequente, que de tão habitual, a partir de determinado momento isso me seria imperceptível... e que em um momento posterior, o café seria o maior aliado! Que em alguns momentos, o sono é luxo!

Percebi que teria sérios problemas com horários de alimentação, que eu engordaria e emagreceria em curtos prazos de tempo. Que eu choraria por saudade, que eu choraria por medo, que eu choraria por pressão, que eu choraria no banheiro, que eu choraria no telefone, que eu choraria em alguns ombros, que eu choraria sem saber o motivo. Que notícias fortes me abalariam profundamente e me fariam querer voltar pra casa naquele mesmo instante. Percebi que a vida é um constante jogo de renúncias, que mesmo as pequenas conquistas exigem abrir mão de tantas coisas. E que se eu estou disposta a viver dessa forma, as grandes metas são possíveis SIM!

Percebi também que o meu choro seria muito mais sincero e minha felicidade, muito mais intensa. Que a convivência com determinadas pessoas me conferiria a certeza de carregá-las comigo pro resto da vida. Que se faz colegas por anos e que se faz irmãos em apenas alguns meses. Que eu posso ser muito boa em algumas coisas, e em outras nem tanto. Que não é possível ser bom em tudo, que em alguns momentos eu seria apenas um número, em outros eu seria o meu nome e meu sobrenome! Percebi que hoje sei viver muito mais, sei quando posso largar a responsabilidade um pouquinho de lado, pra curtir e falar besteiras. Sei, com mais clareza que nunca, que a vida cobra sério. Percebi que um ano voa, mas que eu voei junto com ele e foi justamente nele que eu aprendi a alçar vôo, mas a voar com os pés no chão!

Percebi muitas coisas... percebi que eu quero mais!

/ Karina Moraes

07/12/2012

Eu


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Romper de elos outrora considerados umbelicais. Desgarrar dói!

Caminhar, listar sonhos, rasgar a lista e redirecionar-se, se assim for preciso. Coragem!

Todos os dias nos é apresentado um novo calendário. Todos os dias nos são apresentadas margens para constituirmos um novo calendário! O homem está em constante redefinição de si mesmo. Redefine tempo, redefine fronteiras, redefine-se! Metamorfose do "eu", tão brusca a ponto de transformar por completo. Tão sutil a ponto de não se revelar nitidamente perceptível. Verdadeiras revoluções internas. Das inúmeras lembranças de distintas fases vividas, cada qual desenhando-nos à maneira do tempo e dos acontecimentos, nenhuma revela quem verdadeiramente somos nós. Daí da ausência de resquícios que possibilitem apontar um "eu" autêntico. Se é que ele existe. Se somos algo, somos muitos... que coexistem em um mesmo ser. Cada face desse plural apresenta uma característica singular, agregada em algum momento perdido no tempo. Esse turbilhão de tantas formas diferentes que podemos manifestar, nos torna mais autônomos em relação a nós mesmos, por não existir algo que de fato nos defina. Não nos limitamos, desaprendemos constantemente do compromisso em mostrar ao mundo o que somos... por não saber realmente o que somos.

Karina Moraes

04/12/2011

...!


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É que a janela aberta ainda deixa o vento repousar folhas secas no criado-mudo. E que a asma dificulta soprá-las de volta ao mundo. Respiração bloqueada e coincidente presença simultânea de água que transborda dos olhos. Na reminiscência do mar que habitava outros olhos... claros! Salgada e escorregadia umedece a face. A urgência em enxergar flores inquieta o peito, vira vapor na alma. Ressurge e revive... em passageiros lapsos da saudade de antanho.


Karina Morais

09/2011

No ônibus.


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02 de Agosto de 2011, 12h40, dentro de um destino – que solidifico chamando de ônibus – sentada, como sempre que possível, encostada a janela. Esse quadro transparente que ao longo do meu rotineiro percurso me apresenta o mundo lá fora, paisagens vivas que o olhar abraça em frações de segundos, desvendando o que está além banco e do peito.
Talvez seja isso a vontade comum das pessoas em sentarem-se junto a janela dos ônibus: ligar-se ao mundo através da visão, distraindo o coração de seus medos e suas dores na medida em que este passa a dar atenção ao caminhão que ultrapassa, à pessoa que guia esse caminhão, à árvore que vai ficando para traz, ao anúncio promocional de um outdoor, à modelo de biquíni em um outro, à loja de conveniência de um posto.
Mas eis que o céu despeja gotas primeiras d’água num dia de sol tímido, caem em minha janela, embaçam o vidro e a visão já dificultada reflete apenas os esboços da matéria, o contorno em penumbra de fábricas e autos. O coração já desatento e cansado do mundo lá fora volta a encasular-se e, se por alguns instantes a ocupação era divertir-me com as placas dos automóveis me contando suas origens, agora passa a ser observar percorrer a gotícula que se desfaz em fio de água deslizando pelo vidro. Os contrastes em vibrantes tons verde de mato que a chuva apagou, faz-me esquecer das cidades que aprendi nas placas e com o coração retornar à minha natal, diga-me colega, se há lugar no mundo mais confortador que a casa dos seus velhos? Mas é preciso desgarrar-se, seguir viagem, sempre é breve o momento em que o sol ressurge limpando a janela. Os sonhos orientam a real direção.


/Karina Morais
22/08/2011

Pingente-vida


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"Viva a vida mais leve, não deixe que ela escorregue, que te cause mais dor (...) e amanheça brilhando mais forte que a estrela do norte!"


Já repararam como definir determinados momentos bons é especialmente complicado? Digo "especialmente" porque essa dificuldade vem acompanhada de um gostinho de copo cheio, embriaguez causada pela vida que, por vezes, corre nos lembrar de sua efemeridade, servindo de alerta aos corpos cansados.

Talvez esse seja mais um papo clichê mas, meu amigo, me diga se não é o próprio homem o maior dos clichês? Somos essa coisa toda que dizem de nós e que repetimos de quem disse, mesmo sem pretensões de plágio. É que ao se tratar de uma abordagem genérica, poxa, nos conhecemos absurdamente bem, ficando, conseqüentemente, vulneráveis a definições iguais. Mas alguém disse que isso é ruim?

Alguns instantes se revelam detentores de um poder tão grande que mal percebemos a hipnótica situação em que nos encontramos, tamanha é nossa atenção a tais momentos, quadros que se dispõem aos nossos olhos tal qual nos faz desenvolver inexplicável gula por coisas abstratas, digo, engolir sensações e energias que sentimos, com uma imensa ansiedade explicada pelo imperceptível medo que temos de sentir por alguns instantes a ventura em ter a vida nas mãos e deixar escorrer por entre os dedos. É difícil segurar coisas raras e delicadas sem quebrar ou arranhar. Vem então aquele nó na garganta da ansiedade presa no esôfago da vontade que grita em nós de dar um jeito de dizer a essa coisa que está ali, nas mãos, que estamos chamando de vida, pra não ir embora, pra ficar ali, intensa, vibrante, colorida, radiante. Dá vontade de fazer dela algo palpável e colocarmos logo um chaveiro pra grudar no cós da calça e quando mudar de calça, colocar esse chaveiro na bolsa ou, sei lá, qualquer adereço junto ao corpo, intencionalmente deixando muito, muito visível, estando sempre diante de nossos olhos de forma a nos lembrar do nosso compromisso de cuidar, de amar essa coisa. Essa coisa que não é concreta, que não é um chaveiro, muito menos "coisa". Isso que eu chamo de vida, não na sua comum denominação substantiva, mas adjetivando: tô falando de VIDA, ENTENDE?!

Tento narrar um encontro interior, um encontro da alma, aquele que lhe dá um tapa na face fazendo abrir mais as pálpebras e enxergar um amor por vezes tímido que periodicamente escapa de um bolso meio furado e desbotado, pondo-se agitado por toda nossa pele, meu amigo, estou tentando explicar essa nossa capacidade em redescobrir muitas e muitas vezes a paixão pela vida!




/Karina Moraes
(23.07.2011)

Gizé


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De certo que pirâmides em ruínas, reduzidas a escombros devido às intempéries do tempo, possuem mais poesia que o momento de suas gloriosas edificações. Apercepções de devastações assinalam a passagem do tempo, bem como suas marcas, incrustações reminiscentes dos valores resultantes de outrora. Embora assolada, faz-se intermédio de lembranças dos períodos de auge. Antíteses: revivências de um passado morto. Eis que as histórias que nos compõem desmoronam-se em nós mesmos: nada que possa ressurgir está definitivamente enterrado. Nenhum passado é morto, a capacidade humana de LEMBRAR nos prova isso. Legitima a vivacidade de fronteiras que jamais foram concretamente superadas, embora concluídas tantas travessias. Revive! Aproxima o pretérito do presente num constante jogo de evidências de antanho. Sensações ora amenizadas, ora vingadas no arrepio tegumentar. Mas avante! Continuemos a caminhada, cientes da coexistência dos desconcertos vitais de outros tempos junto a um olhar positivo rumo ao infinito. Não é inteligente desprezar o passado. Mantenha-se, se direcione, a calçada é longa e nem toda estrada é pavimentada.


/Karina Moraes
(05.07.2011)

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