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Amo e odeio a cidade, concomitantemente, o tempo todo. Tenho me percebido num estilo de vida que gosto, mas que questiono. Parece incessante a busca pelo preenchimento do tempo. Não sei o que é simplesmente "estar", sem essa coisa frenética de me perder em calendário, relógio e continuar achando que ainda é pouco, que eu poderia e deveria fazer mais. Depois usar tudo isso de pretexto pra me transbordar em alguns outros excessos. A gente se adapta à caoticidade e adota um estilo de vida tão caótico quanto. Na real, também não sei se tô afim de uma outra postura frente a isso. E não sei se é por gostar que seja assim, ou se é por simplesmente não estar disposta a encarar mais uma luta de readequação. Tudo o que faço me é claro de sentido e razões. Tudo! Em contrapartida, nem sempre sei elencar prioridades, não sei dosar o dispêndio de energia pra isso ou pr'aquilo. Essa coisa de "deixar tudo fluir" tem me enjoado, preciso saber pra onde corre o fluxo da maré e o que eu espero da correnteza. Tenho considerável dificuldade em tomar decisões, mas sou verdadeiramente segura comigo mesma e isso me faz crer que devo ter tudo sob controle, em absoluto, que é pra não titubear. Exceto pra um lado místico que ainda procuro conhecer, abstração definitivamente não é meu forte. Prefiro a praticidade e objetividade das coisas. Indefinições me cansam, em todos os aspectos, embora reconheça que por vezes seja eu a procrastinar as definições. Parece confuso, é confuso pra mim também. E assim seguimos bailando nossas próprias contradições, amores e desamores, com a cidade, com os sujeitos que nos compõem, com o tempo.

Karina Morais
26/08/2014


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A  gente se limita pra se poupar, e se poupando se sabota.
Malditas minúcias que se sufocam nos receios e minguam antes de experienciar a lua cheia.

"Eu gosto mesmo é de vida real"


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Não tenho tempo pra mundo imaginário. Durmo tarde mas não sofro de insônia e nunca sofri, os dias são sempre corridos e cheios de gente, não sobra muito espaço pra flertar com abstrações. Parece clichê mas prezo mesmo pelo aqui, pelo agora, por pessoas e acontecimentos reais, pela clareza e praticidade das coisas. Só trabalho com suposições em trabalhos acadêmicos. Minhas saudades são muitas e intensas, mas facilmente controláveis. Digo o mesmo às preocupações. Acho que, de todos os aspectos da vida, me sensibilizo mais com crianças, idosos e cachorros. Não tenho muito dom pra construir novelas mentais e ainda menos pra suprir expectativas pras novelas que o mundo quer que nos encaixemos. O que tiver que acontecer, acontece e ponto. Há madrugadas em que eu até queria conversar mais com os lençóis antes de adormecer, pra conseguir visualizar certos pensamentos bonitos que por vezes me acometem de surpresa. Mas meu travesseiro é um convite ao sono e antes que os quadros se formem eu já me anoiteci.

Karina Morais
07/2014

1ª Pessoa do Singular


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Desde que me reconheci enquanto sujeito social que – como todos os sujeitos sociais – porta capacidade de articulação política, busco pensar em como se projeta cada uma de minhas ações e perceber como são construídas as opiniões, minhas e daqueles que me cercam. Desde que me reconheci enquanto sujeito político-social, minha vida é constante desconstrução e reconstrução e tô o tempo todo me policiando quanto a esses nivelamentos. A diferença é que hoje eu sou segura o suficiente pra conseguir afirmar determinados posicionamentos que em um outro momento eu recearia falar, e a não ignorar aspectos da sociedade que talvez eu ignorasse por escolher ignorar. Eu respiro e vivo em função de uma identidade ideológica seguramente definida que, não obstante, frequentemente se coloca em conflito com tudo o que um dia me ensinaram e me doutrinaram a acreditar (por também se tratar das ideologias que perseguiam).

Repare que eu não tô falando apenas de objetivos. Objetivos eu os tenho (e me conforta tê-los) mas, aqui, digo mesmo é de ideologias! Tem noção do quanto isso é forte, meu caro? São elas que me norteiam e são a elas que eu me agarro quando a fé é pouca. A fé em mim mesma, saca? São elas que não me deixam renunciar tanta coisa que me faria oscilar e são a elas que canalizo toda energia quando a fonte parece secar e a apatia toma conta de tantas outras questões da vida em sociedade. Confesso que, dado o sistema em que estamos inseridos, isso é um bocado angustiante: falta braço e tempo. A gente queria mesmo é abraçar o mundo! Fôlego tem, e perna tem também (ainda que por vezes nos convençamos do contrário)! Sabe, só queria registrar que tenho me sentido bastante empolgada com a atuação política. Não é lá nenhuma novidade, mas eu tô mesmo num momento enérgico pra isso. Tenho me deparado com ideias novas e com pessoas lindas – de coração e de luta – que se somam no caminho.

Muito tem me estimulado levantar a bandeira pelo plebiscito popular a favor de uma reforma do sistema político. Muito me estimula integrar um Coletivo que confio e que ajudo a construir. Muito me estimula estarmos trabalhando – dentro desse mesmo Coletivo – junto às escolas públicas e debater política com uma garotada que talvez jamais se interessasse por isso. Muito me estimula estar na luta feminista e encontrar mulheres maravilhosas dispostas a levar a frente ideias de ações em prol da igualdade de gênero em todas as instâncias. Sabe, minhas fomes político ideológicas crescem vertiginosamente e se mostram insaciáveis. Eu gosto disso. Na real, na real, eu só precisava escrever que eu tô feliz por estar incentivada. Não com as conjunturas atuais, mas por me sentir útil àquilo que persigo, sem precisar de holofotes. Eu preciso contar que eu tô estimulada, que é pra eu lembrar depois, naqueles momentos que a gente tem vontade de jogar tudo pro alto e vestir logo o discurso derrotista. Eu não nego as minhas inconstâncias e eu tenho ciência que o otimismo de hoje pode não ser o de amanhã. Isso me dá medo às vezes, mas política é quebrar a cara também, porque o mundo é torto e a gente precisa aprender a ter jogo de cintura, que é pra não enlouquecer... mais.

Karina Morais
12/08/2014


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Engavetar curtas-metragens, guardar as emergências no estômago.

...E como pega!


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"São Paulo é como um mundo torto", escrevi. "O que isso significa?", perguntaram-me. "Que a caminhada é cheia de desníveis" - respondi - "Em qualquer lugar é, mas aqui o bicho pega".

...E como pega! Pega quando a fuligem do ar lhe faz tossir; pega quando o sorriso de um desconhecido te surpreende, tamanha é a indiferença dos transeuntes; pega todas as vezes que você tem que engolir uma falsa ideia de "democracia", essa, que é toda manchada por um legado ditatorial; pega todas as vezes que você fala ou visita uma ocupação e sai dali escutando rotularem aquela gente como "parasitária"; pega toda vez que um companheiro que questiona o sistema tem seu nome marcado num processo criminal; pega toda vez que pessoas próximas cospem em você todo o discurso midiático pra deslegitimar a penosa luta dos movimentos sociais que você tanto apoia. Pega toda vez que você não consegue dormir por conta do barulho dos carros; pega toda vez que você dorme sonhando com o barulho das buzinas. Pega toda vez que um "fiu-fiu" te faz lembrar o quanto essa sociedade patriarcal é escrota com as mulheres; pega toda vez que você lê a manchete de mais um gay sendo espancado, de mais umx trans* sendo mortx, de mais uma lésbica sendo estuprada por "corretivo social", de mais uma dona de casa sendo violentada pelo marido, de mais um negro levando porrada da polícia. Pega todas as vezes que o tempo no transporte público lhe faz cansar mais que seu trabalho e que seu trabalho lhe lembra todos os dias o quanto o trabalhador é descartável. Pega todas as vezes que os assentos preferenciais não são cedidos àqueles que mais precisam deles; pega todas as vezes que você percebe se robotizando pelos afazeres universitários e todo o resto virando secundário; pega todas as vezes que você se dá conta de estar inserido em um lugar cuja maioria são pessoas aceleradas e passageiras, acostumadas com a pressa e com a superficialidade das coisas. Pega toda vez que você precisa renunciar algo que lhe apraz por pura falta de tempo; pega toda vez que se anuncia um fenômeno celeste observável a olho nu, mas que a poluição não lhe permite visualizar nem mesmo se toda a iluminação urbana estivesse apagada; pega todas as vezes que se naturaliza pessoas em situação de rua, como se elas fossem partes integrantes da paisagem e, portanto, comuns aos nossos olhos; pega toda vez que tenho saudade de casa, pega quando vejo famílias perdendo as suas. Pega todas as vezes que eu tenho vontade de dizer pra todo mundo - ou pra alguém - o quanto tudo isso pega (e como pega, bicho!), mas que acabo "deixando pra lá" porque, além de tudo, eu tenho preguiça e não tenho termômetro pra medir a paciência do ouvinte.

Karina Morais
03/07/2014

Temporalidades


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A gente entende temporalidades em função do sentir que, por sua vez, desobedece os marcadores do relógio e do calendário, cujos pesares são determinados por pura convenção ocidental, ignorando as sensações do corpo e da mente. O calendário acaba ditando quem é o amigo e quem é o desconhecido, e ditando qual a quantidade de tempo necessária pra que a distância entre ambos se anulem e o segundo possa, então, ser considerado o primeiro sem o risco de parecer precoce. Eu digo "que vá a merda!" essa babaquisse de racionalizar o espaço de tempo pra que uma sensação se torne outra sensação e uma forma de enxergar se torne outra forma de enxergar. Eu lá quero ser cautelosa? Quero nada! Quero mais é me jogar nesse mundão e dizer "venha", que aventuras e desventuras também me completam!

Sempre me atentei ao tempo que julgava conveniente ao proceder de cada agir, acho mesmo que tou envelhecendo com doses de adrenalina que alimentam a falta de paciência pra qualquer vestígio de inação. Tou achando ruim? Que nada! Tou me despindo mais de certas formalidades que só atrasam aqueles que querem mas que temem. Querem sei lá o que, temem sei lá o que... esse formigamento de vontades que a gente nem sabe direito definir, fome de cores vivas talvez. Tão racionando sentimento, se poupam tanto que se poupam demais. Tou de cara prá vida! Tou caminhando sem muitos alardes pra "tragédias" ou não acertos.

As minhas responsabilidades? Com sono e cansadas, mas vão muito bem, obrigada. Prossigamos vivendo de inteiros, que a gente se rasga mas se resgata. E eu continuo atropelando minhas próprias palavras, "ok", ansiedade é mesmo o transbordar do presente que insiste em se embebedar de futuro. Se é pra ser, aceito a ressaca! Coisa estranha, que aperreia tudo aqui dentro, com vários anseios da alma. Bom, não só da alma. Mas eu aceito a condição, que é pra tudo ser de verdade, ainda que verdades sejam por vezes momentâneas... pq cê sabe que ora ou outra eu sou assim também, né? Ou é agora, ou pode nunca ser, e o nome desse bicho é inconstância. Sei lá, parece que crio asas mergulhando.
Karina Morais
14/05/2014

:)


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E o que eu queria mesmo era ver a pele envelhecer se enrugando na queda d'uma cachoeira. Fotografar algumas criações malucas (de autoria própria, dessas que ninguém decifra mas acha graça), talvez com galhos secos, papel e urucum e, por falta do que chamar, diriam se tratar de "arte contemporânea". A gente poderia, sei lá, inventar e reinventar o ócio, ressignificando o tempo a nossa maneira e bel prazer. Poderíamos nos despir do relógio, celular, calendário (e de tudo mais que fosse mania ocidental), não ter hora pra ir, nem prazos pra voltar. Experimentar sinestesias. E, se por ventura um dia nossas aventuras perdessem o motivo de ser, que livres aceitássemos sua ciclicidade, entendendo que nossos propósitos são também nossos próprios despropósitos.

Karina Morais
06/05/2014

...about love and handcuffs


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De certo que o amor é uma coisa boa. Mas igualmente grande a sua beleza e deslumbre é também sua periculosidade. Os distraídos afirmam-se no amor com atas e vendas, inseridos em uma lógica que faz deste mesmo amor uma ferramenta de manutenção das relações de poder. Beleza, deslumbre e perigo. O amor é, por vezes, o estado de espírito que internaliza a condição de opressão.

Karina Morais
23/04/2014

moon


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A pérola que hoje, rubra, enfeita a abóboda celeste, se reveste em manto de neblina, envolta em turvo véu, do céu que cobre São Paulo. Quisera eu que meus poetas do interior, com os pulmões mais leves que o meu, soubessem descrevê-la tão fielmente quanto meus olhos fariam, longe do concreto e do asfalto...

15/04/2014

clock


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Os calçados que repousam fora dos pés e os pés que repousam fora do relógio. A coluna que se desnuda da rotina. A rotina que "tic-tac". Todo e qualquer símbolo de controle do tempo,

é uma barbárie!
Karina Morais
04/04/2014

march


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Hora de guardar as roupas curtas, vestir os pés e a pele e deixar a janela menos,
mas ainda assim entreaberta, que é pra noite refrescar os tecidos
que se equilibram a temperatura do corpo, imerso no repouso.
Pequenos prazeres pr'aqueles cujo vento gélido é bem vindo! 
O frio, ainda tímido, começa a resfriar São Paulo
e a tocar a carne das gentes que dormem
sob colchões e calçadas vivas.
É fim de março!

Karina Morais
27/03/2014

Existir


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Já fiz muita coisa "errada", inúmeras vezes o acordar pela manhã era imbuído de pesares que não me deixavam descolar a cabeça do travesseiro. Mas, sabe, eu me perdoei. Não por minhas ações impulsivas e por vezes desmedidas, mas por ter traído a mim mesma todas as vezes que me auto julguei, que me autopuni, quando na verdade todos os feitos só significavam o exercício da minha liberdade de escolha, da minha autonomia, da minha fidelidade comigo mesma. E, se hoje eu digo isso, é porque aprendi - e aprendo - a ser segura o suficiente pra que ninguém precise ditar meus passos ou meu comportamento. Esse legado cultural de tradições doutrinárias é um atentado ao meu direito de existir! Minha consciência vai muitíssimo bem, obrigada. Ressaca moral é algo que limita a nossa condição de SER.

Karina Morais
21/02/2014

Forma[to]


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Sempre que ouço "me formei em tal escola/universidade" ou "sou formado em x coisa", minha mente instantaneamente parafraseia: "tomei o formato de tal escola/universidade", "tenho o formato de um x coisa", "concluí um processo que me dá um formato específico". Daí que fico imaginando, pra cada pessoa, qual teria sido o molde que a construiu. Há algum tempo a expressão me soa com certa estranheza e me remete a outras que me causam repulsa ainda maior: mecanização/padronização/enquadramento. As instituições educacionais regulares, básicas e superiores, nos acondicionam a determinados métodos que nos tecnicizam compulsoriamente. Mecanizam o pensar, o saber e o criar. Desde o fundamental II, além da oportunidade de estudar, eu tive a oportunidade de escolher onde queria estudar. No terceiro médio, uma prova de vestibular - e só ela - me considerou "lapidada" o suficiente para adentrar um campus universitário. A escolha do [per]curso também foi minha, a escolha que eu continuo fazendo todos os dias. Mas nunca me perguntaram o que eu achava (e acho) dessa coisa de sermos feito água, que se adapta conforme o recipiente ou que segue unidirecionalmente a correnteza. Nunca me perguntaram o que eu acho dessa "forma" do aprender e do desenvolver. Essa loucura de reprodução metodológica, sistemática e aprendizagem seriada. Um formato de ensino que me dará um formato de profissional. Qual é a forma do engenheiro? Do historiador? Do biólogo? Do dentista? Do filósofo? De que molde saímos nós do terceiro médio? E da universidade? E se eu achar que isso tudo tá errado e não seguir as regras limitantes que me impõem, serei eu um "sem formato"? "Form-ação", seria a forma da ação? Dizem por aí que os não diplomados são aqueles sem "[in] formação". Que coisa... Algumas das pessoas que eu mais senti orgulho na vida, nunca souberam o que é um Currículo Lattes. Que sociedade equivocada a nossa, não?
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Karina Moraes
13/11/2013

SP


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De certo que São Paulo é sedutoramente atraente. O cenário é de contrastes e o palco pede luta. As ruas se sufocam de prédios, luzes e autos, o cheiro de chuva rompe o concreto, o cal, o caos e o asfalto, lava os semáforos e se desfaz em reminiscências - pé descalço, "betes", queimada, rouba-bandeira, interior. São Paulo por vezes se mostra impenetrável, dormitando em teimosia, mas talvez seja justamente sua caoticidade o que mais se assemelha com nossas inconstâncias e urgências. A gente vai aprendendo a se gostar, nós da cidade, e a cidade de nós. Há uma crescente nesse lance de pertencimento: a gente se reconhece no corpo social, mas nem sempre esse corpo social se reconhece em nós - tantas são as distâncias. E, assim nos percebendo e dando de cara com os conflitos, anseamos fôlego: jamais trair a responsabilidade de nos aventurarmos nessa ousada vontade de vermos crescerem juntos: o individuo na sociedade, e a sociedade no indivíduo. Quer saber? São Paulo é mesmo um grandalhão carente de abraço!

Karina Morais
(dos escritos não concluídos do caderninho de 2011)

Vizin.ar


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Mal vejo a cara do meu vizinho de apartamento e, como que naturalizando a bolha, por vezes me deixo esquecer que as fronteiras estão pr'além das paredes. A gente mais percebe o relógio que o pulso, e mais a camisa que a pele. A flor é ainda mais bela, tão porque, menos raro é o asfalto. Os que caem viram estatísticas, e estatísticas são números sem sobrenomes. A gente fica meio que assim, engolindo fogo cruzado e se tatuando de contrastes. A gente se veste de poesia, pra cobrir as vestes dos grilhões sociais. A gente se transveste de amor e caos, só pra parecer que a vida tá normal. A gente luta, labuta, por nós e por um outro, que também somos nós. E dorme com peso na consciência. Pelo tempo que se perde dormindo.

Karina Morais
08/10/2013

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